Nos últimos anos, as mulheres muçulmanas da Turquia e da Europa que manifestam sua religião têm sido alvo de perseguição. Numa tentativa desesperada de virar um Estado absolutamente secular, digno de adentrar a União Europeia, a Turquia, através do seu Tribunal Constitucional (uma espécie de Suprema Corte) proibiu o uso de véus em universidades e prédios públicos, gerando a revolta de uma horda de mulheres islâmicas que trabalham, estudam, e preferem, por uma questão pessoal e religiosa, usar o véu.
Em 2004, o então presidente francês Jacques Chirac, também em nome do laicismo, baniu das escolas públicas os símbolos religiosos como crucifixos, quipás e véus. Na época, o ex-chanceler alemão Gerhard Schroeder também se manifestou contra o uso do véu islâmico pelas professoras da rede pública de ensino alemã, e Berlim proibiu terminantemente o uso de símbolos religiosos em escolas do governo.
Ontem, o sorriso menos fotogênico da França, também conhecido como Nicolas Sarkozy, deu mostras de que pretende dar continuidade à política de seu predecessor. Ele afirmou, solenemente, que a burca não é bem-vinda na França, e que o governo não exclui proibir por lei a vestimenta.
Segundo este exímio conhecedor das ciências religiosas, a burqa "não é um símbolo religioso, é um símbolo de subjugação, um símbolo de humilhação". Os parlamentares franceses devem se reunir em breve para julgar se as muçulmanas de seu país podem ou não usar um pano que as cobre da cabeça aos pés, já usado por décadas pelas mulheres afegãs.
Agora me ocorre uma comparação: no Irã, mulheres foram espancadas por policiais em 2007 e 2008, numa onda de intolerância, por usarem roupas ocidentais. Ora, o que são roupas ocidentais senão um "símbolo" do qual o governo de Teerã discorda?
Em entrevista a algumas mulheres muçulmanas que vivem no Brasil, escutei coisas que me surpreenderam.
Perguntei:
- Você é obrigada a usar o véu?
E ouvi respostas do tipo:
- Não, mas me acostumei desde pequena e me sinto melhor assim.
- Não, mas prefiro sair com ele, pois é o que acho certo, segundo a minha crença.
- Não, me sinto bem com o véu. Gosto de sair com ele. Não me sinto à vontade sem o véu.
Não importa a razão. No Afeganistão, elas foram obrigadas a se cobrir por inteiro, por muito tempo. Hoje, algumas sequer imaginam como é sair sem a burqa. A questão não é o significado disso para o Sr. Sarkozy - se é subjugação ou humilhação. A questão é o que a burqa representa para cada uma delas, e é bom ter o direito de escolher.
Em todo o mundo islâmico, as mulheres se acostumaram a sair às ruas com os cabelos cobertos: seja por imposição dos pais, seja por ver todas as amigas usando o véu, seja por seguirem os preceitos de sua religião. Algumas simplesmente se sentem melhor com o véu, assim como nós ocidentais não suportamos ficar sem sutiã.
Numa luta irracional pelo secularismo, contra todo o estigma de fundamentalismo criado em torno do Islã e da religião muçulmana após o 11 de Setembro, alguns líderes ocidentais parecem se confundir, esquecendo os princípios básicos da liberdade individual de expressão, conceito sempre alardeado pelas chamadas democracias do ocidente. É triste, e trágico, como o fundamentalismo é respondido com fundamentalismo.
Na Alemanha, 3,7% da população é muçulmana. Na França, cerca de 8%. Na Turquia, o número é de 99,8%.
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Li hoje uma parte do discurso inflamado do Sarkozy, onde ele afirma que a burca "reduz a mulher à servidão e ameaça a sua dignidade".
ResponderExcluirÉ realmente decpcionante e muito triste que em pleno século 21, os homens continuem a se comportar como se fossem uma especie de "porta voz" dos desejos e necessidades femininas, sem perceber ( ou percebendo, o que é pior ainda) que as opiniões que expressam não correspondem ao que pensamos nem ao que queremos...Lá,lá,lá...
Fico realmente muito triste, e pior: deve ter um bando de mulheres sem noção batendo palmas e achando lindo a decisão que vai "libertar" as mulheres do uso da burca.
Fo-da!!!! A propósito: EU ODEIO USAR SUTIÃ!!!! KKKKKKK
VOCE DEMOROU PRA POSTAR DESTA VEZ, MAS COMO SEMPRE, VALEU A PENA ESPERAR!
BEIJOS FEMINISTAS, PATTO.
Claro claro, fim a pluralidade cultural, pra que ser plural, né? Ninguem ganha nada com isso. hunf
ResponderExcluirDa mesma forma que algumas mulheres usam sutia e outras não (eu nao! nunca!), algumas mulheres usam burca e outras não. Algumas por imposição, outras por gostar, outras pela religião, outras por desconhecerem outras culturas onde ela não exista. Eu acho otimo usar uma versão de hijab quando venta, e não sou muçulmana.
E ai, na Turquia, se 99% é muçulmana, em sua cidade mais populosa, Istanbul, menos de 50% usa burca. Umas usam, outras só o hijab, outras nem isso, e o país não deixa de ser um país muçulmano, nem moderno, nem plural (e nem maravilhoso e fundador de um bom bocado das ciências reconhecidas hoje).
Too bad pra França se eles querem obrigar os cidadãos a vestirem alguma coisa, prova mais uma vez que a posição de líderes na moda e indumentária eles já perderam ha muito tempo.
Tá vendo, nem o sutiã é absoluto. :)
ResponderExcluirValeu pelos comments, meninas...
Já dizia o ditado: the road to hell is full of nice intentions... Sarkozy tentando defender a liberdade da mulher, acabou metendo os pés pelas mãos esquecendo que a maior liberdade é o direito de escolha. Por mais que eu concorde que a burqa é sim símbolo de submissão e inferioridade no mundo muçulmano, sempre serei a favor da liberdade de escolha.
ResponderExcluirSe a moda pega, vai ter brasileiro querendo obrigar as mulheres de igrejas fundamentalistas a cortar os cabelos, pintar as unhas e usar aquelas calças de cofrinho...
ResponderExcluirStanislaw Ponte Preta chamaria Sarkozy de "cocoroca". E com toda a razão.